Luz natural e amplitude para não ver o tempo passar 1 . 12 . 2008



Luz natural e amplitude para não ver o tempo passar
 
O shopping-caixote está com os dias contados. Sem iluminação natural nem ventilação direcionada só há duas saídas: reformar ou readaptar-se. "Tenho pena do arquiteto que ainda opta pelo estilo neoclássico fechado", diz Washington Fiuza, presidente do Arquitectonica Brasil, que representa um dos mais prestigiados escritórios de arquitetura dos EUA. Fiuza lamenta que os empreendedores nem sempre dêem valor ao estilo contemporâneo, que privilegia o estudo dos ventos, direciona a insolação e reaproveita a energia. "Entre as pessoas de bom gosto o neoclássico caiu em desgraça e vem abrindo espaço para as linhas modernas que valorizam grandes janelas e jardins generosos."
 
Fiuza aplica essa filosofia arquitetônica ao futuro Shopping JK, em construção, localizado em um dos mais valorizados corredores de São Paulo. É uma tendência muito atual essa de priorizar a luz natural. No JK, por exemplo, o corredor central terá 16 metros de largura por 100 metros de comprimento, escancarando um skylight que isola o calor e proporciona uma suave luz que se espalha a partir do teto de vidro. "As construções antigas privilegiavam o uso da luz artificial com o propósito de impedir que o consumidor tivesse contato com o mundo lá fora." "Hoje a ordem é fazer com que o cliente continue perdendo a noção do tempo, mas por causa do conforto ambiental que o local proporciona."
 
O arquiteto Alberto Botti, da Botti Rubin, que planeja a entrega de 15 shoppings dentro do próximo ano, também aposta no fim do que classifica como shopping-cubo. "É uma evolução óbvia", constata. Tanto que, como ele mesmo afirma, as edificações de 20, 30 anos atrás estão todas em fase de renovação. "As fachadas estão se abrindo; paredes inteiras de vidro substituem a alvenaria; tudo dentro dos shoppings está passando por alguma transformação". Mas Botti discorda que haja um novo estilo em andamento. "Shopping não tem estilo", provoca. "Shopping nem arquitetura é. Shopping é uma imensa disputa de egos. Não existe nenhuma área na arquitetura onde os egos sejam menos exacerbados que os de shopping."
 
Com ou sem disputa, é notória essa grande transformação dos shoppings. As mudanças são inclusive geográficas. O preceito de que um shopping deveria conservar uma estratégica distância do outro vem sendo derrubado há dois anos, segundo Botti. A chegada do capital estrangeiro e a demanda por shoppings cada vez mais próximos da comunidade determinam novas soluções e conceitos que atendam objetivos muito específicos. Esses objetivos incluem principalmente corredores mais amplos, iluminação natural e imensos espaços para eventos. "Shopping é uma edificação em constante evolução", diz Botti. "Quando atinge a plenitude, tem de cuidar da expansão, da remodelação ou da readaptação."
 
Shopping costuma ser também a sala de visitas da comunidade do entorno. "As pessoas marcam encontro, vão tomar café no shopping e ali desempenham atividades que até bem pouco tempo só faziam em casa - como receber amigos, por exemplo", diz Fiuza. Shopping pode também alavancar o status de um bairro inteiro. Na zona leste paulistana, muitos espaços até então sucateados e desvalorizados, acabaram alterando o próprio desenho social da região a partir da chegada do shopping. Exemplo disso é o bairro Anália Franco, em São Paulo, onde a inauguração do shopping desencadeou o lançamento de edifícios residenciais de alto padrão, atraiu uma vizinhança mais próspera e alçou o bairro a uma inusitada valorização econômica. "Há até cidades inteiras que podem contar suas histórias antes e depois da chegada do shopping", diz Fiuza.
 
Esse notório poder transformador do shopping leva os empreendedores a considerar o uso multifacetado de seus investimentos. O Cidade Jardim, inaugurado em maio último à beira do rio Pinheiros, em São Paulo, vai conviver com edifícios residenciais (ainda em construção) e serviço de hotelaria, além de centros de entretenimento e espaços para eventos e convenções. Esta é uma opção pelo lifestyle, segundo a explicação de Felipe Vasconcelos, diretor de shoppings da JHSF, empresa que construiu o Cidade Jardim. De poucos anos para cá há uma demanda considerável pela valorização dos diferentes estilos de vida, ele explica. "E o shopping deve se adaptar às necessidades da comunidade."
 
E o que buscam as pessoas que freqüentam shoppings? Segundo Vasconcelos, buscam espaços mais confortáveis e corredores mais espaçosos; pontos de convívio e de relaxamento com mesas e poltronas que garantam o descanso entre uma compra e outra; operações que vão se especializando, como lojas de café com internet; mais opções de lazer (cinemas e teatro); restaurantes variados - para entrar e aproveitar, o que não é possível nas praças de alimentação. "Nosso objetivo é que o consumidor fique mais tempo e volte mais vezes justamente porque naquele local ele desfruta de um centro de múltiplo uso", diz Vasconcelos.
 
O conceito de shopping é muito diferente do que era há 30, 40 anos. Botti acredita que shopping hoje tem uma real responsabilidade com o consumidor - que paga por mais segurança, por facilidade de estacionamento e por múltiplas escolhas. "Shopping é programa e o investidor competente sabe que deve acompanhar as mudanças", diz Botti. "Quando acredita que seu empreendimento atingiu o pleno, o investidor inteligente sabe que está na hora de começar tudo de novo".
 
Nesse particular, a grande tendência é facilitar a vida dos consumidores. Em São Paulo, as dificuldades se traduzem em congestionamentos e carência de transporte de massa. E já que São Paulo não deve livrar-se desse problema a curto ou a médio prazo, o shopping precisa estar mais próximo, combinando mais espaço com mais conforto, mais verde, mais operações, mais lazer. "A referência tradicional de shopping era quanto mais lojas, melhor - como se fosse uma galeria comercial", define Vasconcelos, do JHSF. "Essa filosofia mudou: o investidor gasta muito mais para construir, mas o retorno também é infinitamente maior". A próxima onda é o shopping entrar na disputa pela primeira opção do consumidor."
 
Essa busca poderia acontecer em São Paulo com uma infinidade muito maior de opções, na opinião de Washington Fiuza, não fosse a dificuldade imensa que o paulistano tem de se locomover. Na China, por exemplo, foram construídos mais de 100 shoppings supermodernos e sofisticados nos últimos anos. Em São Paulo, diz Fiuza, o mercado é limitado. "Terrenos fora da cidade seriam uma boa opção, mas temos as barreiras clássicas das marginais congestionadas, tráfego de caminhões e perda de tempo nos percursos." Fiuza acredita que tudo isso deve se transformar, como a mentalidade dos investidores está mudando.
 
Silvia Torikachvili

Fonte: Valor Econômico
 





























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